“Nós somos todos hipócritas”

Que declaração forte, hein?

Pois bem, esse grito de desabafo foi o que se ouviu no Parlamento Europeu pelo deputado alemão Daniel Cohn-Bendit do Partido Verde.

Ao criticar o ridículo e ortodoxo (desculpem o pleonasmo) plano que foi empurrado goela a baixo dos gregos pela União Europeia/FMI, o deputado debate  o custo social que tal estilo de política terá para a grande maioria grega.

É categórico ao afirmar que nenhum dos países europeus teria condição de levar a cabo tais reformas dada a tragédia social, que é o seu lado reverso. Sendo assim, por que impô-las à Grécia? Daí por que somos todos hipócritas!

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Sugestões de filmes

Olá pessoal, boa noite.

Hoje, vamos dar prosseguimento às nossas atividades trazendo duas sugestões  de filmes: A Corporação (“The Corporation) e Capitalismo, uma história de amor.

O primeiro, é uma adaptação para as telonas do livro “The Corporation” de Joel Bakan. Ambas as obras são profundamente reveladoras do grau de influência que as grandes empresas têm na composição social atual. Aliás, o filme deixa claro que essas empresas, comandadas pela lógica do capital, são elas próprias a composição social atual: definem padrões de ação, consumo, gostos, pensamento e o que mais se puder imaginar.

Foi muito premiado em diversos festivais de cinemas internacionais. Traz marcantes entrevistas tanto com expoentes da esquerda (como Noam Chomsky, Naomi Klein e Michael Moore) e de direita (Milton Friedman).

Eis o link para um trecho de A Corporação (“The Corporation”): http://www.youtube.com/watch?v=Q-OvIsskvvQ

O segundo é um documentário (sim, DOCUMENTÁRIO com letras maiúsculas da melhor qualidade, a despeito de alguns professores ridículos de economia acharem que documentários têm que ser politicamente neutros. Como se isso existisse, como se a ciência a fosse e como se eles próprios também o fossem…) do já famoso diretor americano Michael Moore (veja-se dele, por exemplo, Fahrenheit e Tiros em Columbine).

Seguindo a mesma linha provocativa e irreverente, Moore nos mostra como a ideologia do capital nos introduzida desde o berço e que como, ao longo do tempo, a violência desse estupro ideológico tem aumentado. Questionamentos como “Deus é capitalista?” “Regular é a solução?“, “O que está por trás da crise atual“, “Existe vida para além do capital?” são francamente debatidos nesse filme, que também traz interessante análise da política imperialista americana atual e sua roupagem de defensora da democracia e do “melhor dos mundos possíveis”, representando pelo capital.

Link: http://www.youtube.com/watch?v=1tI1RTAQc2M

ESPERO QUE GOSTEM! Agora nas férias, tentaremos postar com maior recorrência.

Abraço

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Copa do mundo?! Grande coisa…

Olá pessoal,

No post de hoje vamos deixar um poema de Reginaldo Figueiredo. Com temática polêmica, o poema nos convida à reflexão sobre a grande letargia que, junto com a Copa do Mundo, se abate à sociedade brasileira.

Lembremo-nos, além de chorar pela derrota para a Holanda,  de chorar as mortes em Alagoas e Pernambuco, as cidades destruídas.

ENQUANTO ISSO

Copa na África do sul

Aos sons das vunvuzelas

Disparam as bombas,

Aos gritos da galera

É gol do Brasil.

Agonizam populares

Sofredores nordestinos

Das secas, ou das enchentes

Do ceará, de Pernambuco e de Alagoas,

É gol do Brasil.

Os bares estão lotados

Brasileiros embriagados

Aguarda o próximo combate.

Brasil entra em campo!

O adversário é duríssimo.

O rio Ipojuca,  subiu em Pernambuco,

No interior do ceará, falta água pra beber

Em alagoas, o rio Paraíba nas alturas.

Debaixo d’água, ou na sequidão,

Delira a população.

Perdendo a dignidade

Transforma-se, em ser vício.

Entre estrago e mortes

Milhares de desabrigados

Sedentos de justiça.

Sociedade privada,

Seleção priorizada.

Que me importa a copa

Se os copos que me matam,

As sedes na seca secaram.

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Radicalizar a Democracia

Manfredo Araújo de Oliveira

Filósofo

manfredo.oliveira@uol.com.br

O documento que a CNBB apresentou recentemente à sociedade brasileira sobre a Reforma do Estado tem como objetivo básico colocar em debate propostas de transformações que se fazem necessárias em virtude da abrangência e urgência que os problemas atuais requerem e que deveriam constituir objeto central de debate precisamente num período eleitoral. Neste contexto uma questão muito acentuada é que hoje novos sujeitos históricos levantam problemas a que o Estado e o processo democrático em suas configurações atuais não podem responder. Levando em consideração, como faz o documento, a construção histórica de nosso Estado, podemos compreender que o atual paradigma de Estado fez dele uma entidade para atender fundamentalmente os ricos, o andar de cima da sociedade. Com o surgimento de novos sujeitos históricos emergem perguntas que ultrapassam este padrão de Estado. Por esta razão, a questão não se refere ao Estado enquanto tal, mas diz respeito a este Estado que é estruturalmente incapaz de responder às grandes demandas da maioria da população. Numa palavra, os novos sujeitos exigem novas estruturas.

Um primeiro questionamento radical é sobre a forma atual de nossa vivência democrática, a Democracia Representativa, que se revela extremamente restritiva frente à grade reivindicação de participação na coisa pública. Ela “tem seu ponto alto no momento em que a pessoa, transformada em eleitor, aperta a tecla final “Confirma“, na urna eletrônica“ (P. 22). Isto significa uma delegação aos eleitos para agirem em seu nome. Os novos sujeitos com seus questionamentos trazem ao debate público o fato de que com toda a formalidade dos rituais da Democracia Representativa o que se consegue é apenas estabelecer a base, ou seja, “a possibilidade de se construir a verdadeira e total participação do povo enquanto ser e agente político a serviço do direito natural, do legítimo direito à vida, á liberdade e ao bem comum“ (P. 22).

Por esta razão este tipo de democracia não pode esgotar todas as formas de vivência democrática e a questão de fundo aqui tem a ver com o reconhecimento institucional do verdadeiro soberano que é o povo e com a busca de mecanismos através de que ele possa realmente exercer plenamente sua soberania. O fato mais importante neste contexto de início de século é que a Democracia vem sendo cada vez mais exercida por grupos aos quais ela havia sido secularmente negada em nosso meio.

Aqui se faz referência a problemas extremamente delicados face aos preconceitos que marcam nossa tradição cultural profundamente impregnada por concepções que de fato negam a igualdade e a dignidade de todos os seres humanos. A tese fundamental é que para que um processo de autêntica democracia se efetive entre nós se faz necessário o reconhecimento do caráter pluricultural da nação e do direito à identidade cultural individual e coletiva; da igual dignidade das culturas o que exige a ruptura com a supremacia institucional da cultura ocidental; mais ainda implica o reconhecimento do caráter de sujeito político dos povos de comunidades indígenas, campesinas, ribeirinhas e quilombolas, o que por sua vez implica a superação do tratamento tutelar destes povos usados como objetos de políticas prescritas por terceiros e do reconhecimento das variadas formas de participação, consulta e representação direta de povos indígenas, camponeses e afrodescendentes.

O pano de fundo ético que sustenta estas ideias foi expresso com precisão por Pio XII: “A comunidade política tem na referência ao povo a sua autêntica dimensão: ela é, e deve ser, na realidade, a unidade orgânica e organizadora de um verdadeiro povo. O povo não é uma multidão amorfa, uma massa inerte a ser manipulada e instrumentalizada“. Se a democracia atual não trata o povo como sujeito político pleno, faz-se urgente a busca de superação de seus limites o que significa ampliar o conjunto dos sujeitos políticos com vez e voz no processo de construção da vida coletiva.

Retirado do site O Povo: http://opovo.uol.com.br/app/o-povo/opiniao/2010/05/29/int_opiniao,989094/radicalizar-a-democracia.shtml

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Racionalidade

Emanuel Sebag

Racionalidade

Que é (ser) racional?

Muito é dito que o homem é homem, ou seja, se diferencia dos outros animais, pela sua capacidade de pensar, mas o que seria essa capacidade (habilidade) de pensar? Seria reagir a estímulos? Em que direção essas reações apontam? Será que preciso saber que sou racional para exercer de fato minha racionalidade ou raciocinar é algo inato e independente da nossa consciência? Será que algo para além da consciência é o centro e o fim das minhas decisões?

É sabido que todo ser vivo só o é porque reage a estímulos. Se solto uma pedra no mar, nada ela faz para alterar o curso dos fatos que são impostos a ela e afunda. Ela não (re)age a minha ação, logo não é um ser vivo. Se, por outro lado, solto um cachorro, rapidamente ele tentará sair do mar, que não é o seu local de vida, nadando (reagindo) ao fato que foi imposto a sua vida. Esse exemplo simples nos leva a uma gama de outros exemplos, já batidos em livros de biologia do primeiro grau, que nos dão um conceito preciso de ser vivo pela reação a estímulos naturais. Das plantas que reagem ao calor do sol e crescem aos mamíferos capazes de detectar seus predadores há quilômetros de distância e fogem, todos são exemplos de que todos os seres vivos interagem com o ambiente e reagem a situações naturais, logo essa não pode ser a raiz da racionalidade humana, visto que o homem não é um animal qualquer. Sendo o homem um animal, diferente dos outros, mas ainda animal, a característica de reagir a estímulos a ele se aplica, mas não é capaz de defini-lo. Podemos investigar então como se dão em essência as reações do homem.

Não iremos tratar aqui de teorias de decisão ou escolha, dado que a simples reação do homem a algo que lhe é imposto não nos ajuda em nada para a resposta sobre sua racionalidade. Já que a decisão per si não é capaz de nos definir, poderemos indagar sobre uma possível direção dessa reação.

O que nos motiva a reagir? Essa reação é sempre uma busca pela vida, mas nem toda busca é válida se o seu fim não for verdadeiro. E se aquilo que estamos buscando não representa de fato a vida? Identificamos que todas as reações de seres vivos são em direção à vida, mas a vida humana não é uma vida qualquer e aí encontramos uma diferenciação em nossas reações. O homem não é um simples fruto dos acontecimentos, é capaz de reagir, busca a vida e busca uma vida diferente de todas, uma vida (um fim) verdadeiro.

Criados no seio do Amor, e sendo a Sua imagem e semelhança, temos sede de Amor. A perfeita reação, a perfeita busca pela vida só pode estar Naquilo que é perfeito. Podemos dizer então que o pleno ato humano está fundamentado e orientado no e para o Amor. A realização plena da pessoa humana, na sua humanidade (naquilo que a diferencia e a torna especial) está em orientar a sua vida para o Amor. Logo percebemos que a racionalidade deve ser consciente, moralmente consciente, pois, se não fosse, seria algo instintivo e o Amor é algo acima dos instintos. Necessitamos de conhecer e, além disso, precisamos experimentar o Amor para podermos vivê-Lo e buscá-Lo de maneira legítima e segura.

O Amor, que extrapola todos os limites do consciente e do inconsciente e se abriga no espírito do homem, é a verdadeira força capaz de saciar o homem na busca pela vida e, em sentido mais amplo, na busca por si mesmo. É Aquilo que sendo o impulso vital verdadeiro, torna tudo doce e agradável a todas as esferas da realidade humana. O Amor é o que de mais revolucionário há no universo, pois sendo o criador de tudo, só Nele encontramos o plano de felicidade. Só Ele conhece o caminho, pois o é.

A verdadeira revolução é aquela que acontece no homem, em especial no espírito do homem, aquilo que o torna pessoa e assim capaz de se relacionar como pessoa. Só podemos dar aquilo que recebemos, não que não sejamos capazes de criar, pelo contrário, somos ‘colaboradores de Graça’, mas somos condicionados por aquilo que nos rodeia. A mudança do homem, revolucionado pelo Amor, gera mudança nos outros, constrói novas relações de Amor. Nenhuma mudança que vem de fora para dentro do homem pode ser capaz de transformá-lo tão profundamente, apenas as que emanam do seu coração encharcado pelo Amor são capazes de transformações verdadeiras, pois o Amor não para. Em rude comparação com o calor e seus conceitos físicos, podemos dizer que ele se assemelha ao Amor. Não existe Amor contido (parado) em corpos, Ele está em constante movimento. Em Sua dinâmica própria, não é capaz de encontrar-se em repouso, ao contrário, suscita movimentos e contagia o Seu entorno. Todos aqueles que já O experimentaram não foram capazes de guardá-Lo para si e de imediato são vocacionados a O anunciarem pelo mundo.

A verdadeira revolução está em nossos corações, está na identificação pessoal com o Amor. Devemos estar abertos a mudanças, pois mesmo Aquele que é eterno está em constante movimento. Nada nos torna mais humanos do que a decisão pelo Amor. Para a felicidade completa, nada pode estar acima Dele.

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Das funções sociais do medo

Das funções sociais do medo

“Coragem é resistência ao medo,

domínio do medo, e não ausência do medo.”

(Mark Twain)

Antonio V. B. Mota Filho

Abordaremos no presente ensaio como as relações sociais que se desenvolvem sob o escopo capitalista são, fatalmente, relações de imposição e aceitação de medo. Analisaremos três aspectos: (1) o medo como desenvolvimento; (2) teoria econômica e medo da emancipação; (3) alternativas ao medo.

  1. O medo como desenvolvimento

Joseph Schumpeter em sua Teoria do Desenvolvimento Econômico nos alerta, implicitamente, à constante tensão a qual está submetido o cidadão, notoriamente o empresário, no contexto da sociabilidade mercantil capitalista

O empresário bem-sucedido ascende socialmente e, com ele, a sua família, que adquire, a partir dos frutos de  seu  sucesso,  uma  posição  que  não  depende  imediatamente  de  sua conduta pessoal. Esse representa o fator mais importante de ascensão na  escala  social,  no  mundo  capitalista.  Como  isso  ocorre  com  a  destruição  pela  concorrência  de  negócios  antigos  e,  portanto,  das  vidas deles dependentes, sempre corresponde a um processo de declínio, perda de prestígio, de eliminação. Esse destino também ameaça o empresário cujos poderes estejam em declínio, ou os seus herdeiros, que receberam sua riqueza sem sua habilidade. (SCHUMPETER, 1997, pág 144).

Expandir-se ou ser massacrado, eis a questão. Ao relaxar de seu papel de “desempenhar um papel iminentemente revolucionário” (MARX; ENGELS, 2007, pág. 42) o burguês passa de agente a vítima da racionalidade capitalista: é destruído. Assim, Schumpeter anunciara sua “destruição criativa”: a dinâmica intrínseca ao capital é desenvolver-se pela destruição do outro. Schumpeter percebe claramente que a saída do capitalismo é a constante expansão, mas, longe de criticar essa situação, toma-a como benéfica.

Assim também o faz David Ricardo, que, por mais que perceba que a substituição do trabalhador pela máquina será acompanhada de miséria, a defende

A utilização de maquinaria num país nunca deveria deixar de ser incentivada, pois, se não for permitido ao capital obter o maior rendimento líquido que o emprego de máquinas possibilita, ele será transferido para o  exterior  e  isso  representará  um  desestímulo  muito  maior  à  demanda de trabalho do que  a generalização mais  completa  do  uso de máquinas… (RICARDO, 1996, pág. 277).

O capital possui sua própria racionalidade, busca a maior taxa de expansão (lucro), esteja ela onde estiver: da Terra Brasilis ao espaço (vide a corrida espacial da Guerra Fria) tudo há de tornar-se domínio do capital. Caso não se renda à racionalidade do capital, alguém o fará. “Bellum omnium contra omnes”, como dissera Hobbes, a guerra de todos contra todos.

Mas não pensemos que viver sob intensa pressão psicológica, planejando gastos, com medo de perecer frente à dinâmica do mercado é privilégio do grande capitalista. Ora, não nos esqueçamos que o capitalismo é fundado na igualdade[1]! O trabalhador também compartilha das angústias de seu patrão: sob medo de ser demitido, faz hora extra, aceita  baixos salários, abre mão de ser pai e esposo para ser operador de máquina, (des)qualifica-se. Tudo para que suas oferendas no altar do deus mercado bastem para não provocar sua ira.

Percebamos então quão impregnada a ideologia do capital já está em nós: quem dirá que o ensino tem que fazer a pessoa pensar e não prepará-la para o mercado? Aceitamos, então, que o trabalhador nada mais é que uma mercadoria que, desesperadamente, tem de vender-se. Em sendo mercadoria, há de despertar a atenção do comprador, há de diferenciar-se dentre a “turba anônima” de mercadorias, daí fica completamente compreendida a função da educação para o mercado.

Quem de nós dirá que o bom empresário há de contentar-se com o nível atual de produção, de salário? Que invista em propaganda, crie necessidades nas pessoas, iluda-as, contrate, demita, remaneje, dê lucro: seja produtivo! Não importa a condição que encontre para expandir o dinheiro (destruindo o ambiente, subcontratando, enganando ou extorquindo), como representante do deus capital, tem de recitar seu mantra: “Acumulai, acumulai!” (MARX, 2008, pág. 693).

Não percamos de vista também que o capital é a realização máxima do cientista, é o pragmatismo feito racionalidade e que habita entre de nós. Aético, amoral, impessoal, vai para os braços de quem pode lhe oferecer maior taxa de retorno: ora Estado, ora mercado; ora ditaduras (de todas as cores e apostos), ora democracia.

  1. Teoria econômica e medo da emancipação

Mas se a economia (criatura) domina o Homem (criador), por que não libertarmo-nos? Partimos então para o medo que se cria sobre uma mudança social.

Primeiramente, temos de ter em mente que o modo de produção, qualquer que ele seja, é histórica e socialmente definido. Ao longo da história da humanidade, houve vários modos de produção: o escravista; feudal; asiático; eslavo e, atualmente, o capitalista. Desde já, então, fazermo-nos a seguinte pergunta: se nem sempre existiu o capitalismo (trata-se, na realidade, de um modo que só logrou se efetivar como dominante em idos do século XVIII), por que pensar que ele sempre irá existir?

Percebamos como se dá a argumentação burguesa

Difundir entre as classes operárias […] alguma noção, entre as mais elementares e mais certas, da economia política que os leve a compreender, por exemplo, o que de permanente e necessário há nas leis econômicas que regem o nível dos salários; porque essas leis, sendo de qualquer maneira direito divino, enquanto derivam da natureza do homem e da própria estrutura da sociedade, são postas fora do alcance das revoluções. (TOCQUEVILLE, 1951 apud LOSURDO, 2006, p. 208. Grifos nossos)

Chegamos, então, a um ponto para o qual a única saída para a ciência burguesa é o dogmatismo: aceitar que o homem é, por essência, capitalista. O modo de produção capitalista é portanto natural, qualquer tentativa de transformá-lo é inútil: é razoável alterar algo preparado por Deus? Humanos e sua ousadia…[2]

Percebemos o caráter a-histórico da ciência burguesa, o que, mereceu boa parte das críticas de Marx

Economistas têm um modo particular de proceder. Há somente dois tipos de instituições para eles, as naturais e as artificiais. As instituições do feudalismo são instituições artificiais, as burguesas são instituições naturais. Nisso eles lembram os teólogos, que de maneira semelhante estabelecem dois tipos de religião. Toda religião que não a dele é uma invenção dos homens, enquanto a deles próprios é uma emanação de Deus. Quando os economistas dizem que as relações de hoje – as relações de produção burguesas – são naturais, eles tomam que essas são as relações nas quais a riqueza é criada e as forças produtivas desenvolvidas em conformidade com as leis da natureza. Essas relações portanto são elas mesmas leis naturais independentes da influência do tempo. Elas são leis eternas que devem sempre governar a sociedade. Assim já houve história, mas já não mais. (MARX, 1976 apud MUSTO, 2008)

E assim cria-se o pavor de que o fim do capitalismo será o Dies Irae. Um regime no qual as pessoas só enxergam como concorrentes não pode ser bom e, muito menos, duradouro.

Cabe ressaltar que em nossa análise não cabe o “quê” nostálgico que hoje domina boa parte das críticas ao capitalismo. O alinhamento dos antigos partidos de cunho social democrata e sua crença regulacionista com partidos de centro e/ou partidos de direita são prova de que tal concepção não representa, de fato, um alternativa ao capital.

Também percebemos que durante o período do capitalismo houve intenso progresso técnico e mesmo social: não negamos, para júbilo dos pensadores burgueses, que a penicilina foi uma conquista deste período e que hoje dificilmente se morre de escorbuto. Mas se conseguimos tudo isso alheios do comando dos processos sociais e econômicos, por que não poderíamos, tendo a plena realização da humanidade como objetivo e não lucro, fazer muito mais?

Sem embargo, tratar-se-á de um dos pontos mais delicados de todo o processo de transição para uma novidade: perceber que a ideologia burguesa representa, na realidade, um grande esforço de imobilismo social e construir um novo escopo teórico (não só para as Ciências Econômicas, mas para todas as ciências) centrado na realização plena da humanidade e baseada na pluralidade e portanto também na plena realização da individualidade, que, cabe ressaltarmos, não possui relação alguma com individualismo.

Aí, far-se-á sentir todo o peso da articulação ideológica dos que apoiam o sistema capitalista. Em sendo o capital a ideologia dominante, fará de tudo para continuar a sê-lo: tentará expurgar visões contrárias; ridicularizar propostas; desacreditar quem dele diverge e mostrar-se, como já vimos, como única organização social possível.

  1. Alternativas ao medo

Já vimos que o medo é peça fundamental para a reprodução do capital tanto no campo objetivo (ou seja, nas relações econômicas) como também no campo subjetivo (a saber, no campo ideológico) e sua pretensa aparência de organização social única.

Nossa análise estaria terrivelmente comprometida se encerrássemo-la neste ponto. Para que o papel da crítica possa ser frutífero há que se apontar para uma direção, já que o fim do modo de produção capitalista não garante per se uma formação social superior.

Para tanto cremos que dois pontos são fundamentais: (1) o aprofundamento da compreensão da situação do atual estágio do desenvolvimento capitalista e de suas contradições seja do ponto de vista da insustentabilidade da sociabilidade mercantil seja do ponto de vista da crise ecológica que se preludia; (2) a percepção da falência da política burguesa, consequentemente, de seu Estado e da sociabilidade estatal.

Ora, se pretendemos, de fato, encerrar a “pré história” humana e iniciarmos uma nova ordem social, há de se compreender o que há de errado nas sociedades passadas. Dentro dessa perspectiva, não cabe mais um arranjo político como o que hoje temos: essencialmente classista. A nova sociedade tem de ser a da democracia das massas, sendo assim, um modelo de democracia representativa não é mais uma alternativa.

Fica claro, portanto, que a construção geopolítica do Estado também terá de ser radicalmente alterada: o local tem de passar a ser o locus do poder político e econômico.

Mas, além dessa possível nova conformação política e econômica, cabe ressaltarmos que, acima de tudo e por essência, o princípio norteador da ação revolucionária deve ser a emancipação humana e a recusa a aceitar qualquer coisa que não uma sociedade radicalmente fundada na sociabilidade humana, como afirma Marx (2005, pág. 151): “Ser radical é agarrar as coisas pelas raiz. Mas, para o homem, a raiz é o próprio homem”.

  1. Bibliografia

RICARDO, David. Princípios de Economia Política. Nova Cultural, 1996. São Paulo

SCHUMPETER, Joseph. Teoria do Desenvolvimento. Nova Cultural, 1997. São Paulo

MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista. Boitempo Editorial, 2007. São Paulo

. Crítica à filosofia do direito de Hegel. Boitempo Editorial, 2005. São Paulo

. O Capital: crítica à economia política. Civilização Brasileira, 2008. Rio de Janeiro

LOSURDO, Domenico. A contra-história do liberalismo. Ideias e letras: 2006. São Paulo

MUSTO, Marcello. Karl Marx’s Grundrisse: Foundations of the critique of political economy 150 years later. Routledge, 2008. Londres


[1] Vide MARX, 2008, pág. 206.

[2] Provavelmente, na Bíblia do senhor Tocqueville e afins, o Gênesis deve começar com “Deus fez o capitalismo e viu que isso era bom” e ao invés de soprar às narinas do boneco de barro para que se fizesse a vida, coxixou ao seu ouvido: “Ide lucrar!”.

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Os antigos sábios

Gabriel Frate

A sociedade em que o ancião era valorizado tinha-o como alguém que vive bem, alguém que por estar muito tempo em contato com sua introspecção subjetiva(reflexões) teria autoconhecimento o bastante para tratar das suas relações sociais e suas relações internas com sabedoria; e por se conhecer e entender seus limites de relação (social e interna), com o tempo foi se tornando uma pessoa respeitada por todos a sua volta, por sua facilidade de resolução de problemas e sua significativa presença diante dos problemas sociais, por mérito ganhou o respeito das outras gerações, mérito esse que partiu de suas qualidades humanas, sendo estas fraternidade, humildade, solidariedade etc ; qualidades essas que não são facilmente adquiridas, muito pelo contrario, são apenas conseguidas através de muito esforço e persistência, mas a sociedade tem mudado o foco do significado de respeito, hoje respeitado é quem tem dinheiro, reduzindo o valor do homem ao acumulo de material, sendo toda a sua dignidade projetada ao ter em detrimento do ser humano, em sua qualidade mais intensa, que é o amor, aquele que soma e não reduz.Hoje, a sociedade mudou e os sábios já são poucos e tendem a desaparecer, a cultura que na verdade é imposta, prega valores que acabam por padronizar os pensamentos e diminuir o valor da cognição individual, as pessoas se tornam mais mecanizadas com pouca introspecção e muita reflexão (no sentido de cópia, espelho do que vê, aparência é tida como principal) os atuais anciãos em muitos casos são pessoas doentes psicologicamente, muitas vezes extremamente tristes e carentes, fruto dessa padronização cultural, imposição de valores que visam à individualidade e a aparencia fisica, tendo como base o aparente benefício de alguns poucos (aparente benefício, pois as pessoas vivem de relações com o meio, se essas relações são injustas o problema é diretamente transferido para a pessoa, que conscientemente sabe de sua incapacidade de se ver no outro e sofre, pois não é totalmente cega)que na verdade são tão vitimas deste reducionismo(em que o homem é o acumulo de material), quanto os menores na escala de valores do ter. A retomada de valores humanos seria uma possível resposta para a solução do problema, o retorno a conquista de valores, que se daria através do autoconhecimento, da cognição, da introspecção, e através da sua especialização através do tempo, sendo o amor a fonte de esperança para as pessoas, que não viveriam em perfeita harmonia, mas estariam conscientes de sua igualdade perante ao mundo, e se respeitariam, não pelo que elas teriam, mas pelo que elas seriam: todos seres humanos.

Escala de valores Capitalista.

O capitalismo cria uma escala de valores entre os homens; os que tem mais são mais respeitados, os que tem menos são menos respeitados e os que não tem nada, como podemos ver, equivalem a nada .As pessoas são cegas em relação a eles , são menos até que as coisas,(quando vemos um carro importado e dizemos “ohhh”), mas acredite, são seres com tanto potencial quanto você é.

A grande questão è que somos todos seres humanos e deveríamos ser respeitados por isso, por possuirmos potencialidades todos.Devemos valorizar um homem pelas qualidades humanas que ele tem,e não a quantidade de objetos que ele possa acumular,por isso,alguns ladrões são extremamente valorizados,eles são mimados por roubar .Muitos ladrões existem, porque mostramos que ter é o principal independente de como adquirir, o ladrão de rua tem pouco, por isso não è valorizado,mas o ladrão político, tem muito, e è extremamente “mimado” pela sociedade, ou seja respeitado.Por isso a honestidade, por exemplo, è uma qualidade que não tem mais valor algum segundo a sociedade,pois se uma pessoa è honesta e pobre, o valor dela não è reconhecido, mas quando uma pessoa è desonesta e rica, è uma pessoa admirada por muitos, não por ter qualidades, mas por possuir bens, sendo assim, convidada a continuar com sua atitude.

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